sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Escovar palavras

" Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. No começo achei que aqueles homens não batiam bem. Porque ficavam sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos. E que eles faziam o serviço de escovar osso por amor. E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterrados por séculos naquele chão. Logo pensei de escovar palavras. Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha. Passava horas inteiras, dias inteiros fechado no quarto, trancado, a escovar palavras. Logo a turma perguntou: o que eu fazia o dia inteiro trancado naquele quarto? Eu respondi a eles, meio entresonhado, que eu estava escovando palavras. Eles acharam que eu não batia bem. Então eu joguei a escova fora."
O texto é de Manoel de Barros, o poeta pantaneiro que escava poesia no concreto do dia-a-dia. Abre as memórias inventadas da infância, primeiro da trilogia autobiográfica deste que é um dos maiores poetas vivos do Brasil. Manoel já passa dos noventa anos de idade e carrega a pureza de quem só teve uma idade e que a eternizará: a infância. Dividiu sua biografia e suas memórias inventadas, porque afinal diz com toda sabedoria que tudo o que ele não inventa é falso, em três infâncias: a primeira, a segunda e a terceira. Poderia eu passar a vida lendo e relendo Manoel. Decidi encerrar a semana aqui no blog com esse texto dele porque traduz bem o que sinto depois de tanta intensidade vivida nos últimos dias. Também quero escovar palavras, alimentar-me delas, presenteá-las aos amados, acariciá-las em minha solidão, escutar seus silêncios e todas as suas vozes. O tempo pode roubar-nos a agilidade, a força, a exata percepção das coisas, mas jamais conseguirá nos roubar o acalanto da palavra, das palavras todas, as ditas, as não ditas, as escritas, as pensadas e as inventadas.

4 comentários:

Adriana disse...

Quero não só escovar palavras.Como vc quero tb saboreá-las,escutá-las,perder-me nelas.Vaguear no sem fim dos significados...
Belo texto, belas palavras! Bj
Dri

Anônimo disse...

escovar palavras e lembrancas dos ossos do tempo,
voce foi me levando por um camimnho que deu numa encruzilhada e eu entao caminhei por ela...
vai dar um conto, ou poesia
obrigada pela viagem
M.Helena

Alessandra Roscoe disse...

M. Helena, quero muito ler o conto. Obrigada pela visita e pelas palavras!

Alessandra Roscoe disse...

Adriana,
Vamos sim percebê-las em toda a sua plenitude: as palavras, as histórias, as canções...
beijo.