sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A Emocionante Homenagem do Homenageado

Fiquei lisonjeada e muito emocionada com a crônica do Ignácio de Loyola Brandão no Caderno 2 do Jornal O Estado de São Paulo de hoje. Nos conhecemos na Festa Literária de Pirenópolis e compartilhamos histórias e muitas emoções por lá. Com a maestria que tem com as palavras, Ignácio, que foi o homenageado da festa, foi quem nos presenteou. Transcrevo abaixo a crônica, que já está guardada na memória e no coração!

"O homem que não carregou o arco-íris

Pirenópolis. – Cada vez mais ligo literatura ao prazer de comer, nestas caminhadas pelo Brasil. Venho conhecendo o País por dentro, não tem igual, levado por festas festivais, feiras e bienais de livros. Conhecendo gente, outros escritores e costumes, falas e paisagens que se entranham em mim e me levam a conclusão, cada vez mais segura, que o caminho que escolhi – ou para o qual fui levado – é o melhor. De Pirenopolis ainda trago da Rua Nova o cheiro quente do biscoito de queijo de dona Sebastiana, ao sair do forno e desmanchando na boca. Ou a pamonha frita que me abriu o apetite no restaurante Pedreiras, à beira do rio das Almas, seguida pela caipirosca de Murici.
Há ainda o bolo de pamonha assada, a coalhada fresca, os pãezinhos quentes e doces, o bolo de fubá, do café da manhã na Pousada Casa Grande, na Rua da Alvorada. No Empório do Cerrado, na Rua do Rosário, peça o filé ou o peixe acompanhado pela farofa de Baru, semente da região, com a qual se faz também paçoca, pesto ou licores. Não se vem a esta cidade sem experimentar o empadão goiano que tem palmito, frango, lingüiça, tomate, e tudo o mais que a criatividade exija e exista na despensa da cozinheira. Esquecendo a gula, uma recomendação imperdível: vá a loja de Claudia Azeredo para descobrir roupas, vestidos,blusas, toalhas de mesa, painéis e tapeçarias de enlouquecer, perder o fôlego.
No interior de Goiás, a 145 quilômetros de Brasília, subitamente, pelas mãos de Iris Borges e com o apoio do prefeito Nivaldo Antonio Melo, nasceu a Flipiri, pequena festa literária, já com ares de grande. Falemos da cidade, um tesouro aos pés da Serra dos Pirineus. Fundada em 1727 era um centro de garimpeiros que buscavam o ouro existente no Rio das Almas. Estas almas seriam as dos garimpeiros mortos na região. Uma enchente destruiu metade da ponte existente sobre o rio, daí o nome de Meya Ponte que a cidade carregou por muito tempo, até que os habitantes acharam que era um nome esquisito e mudaram para Pirenópolis, por causa da serra que teria sido assim batizada por um frei que, chegando a região, considerou aquele o ponto mais alto do Brasil, tão alto quanto os Pirineus. Com 23 mil habitantes Pirenopolis é pequena e aconchegante, é como se ela nos abraçasse.
Sua parte histórica, completamente restaurada, concorre em beleza com Ouro Preto e Parati, se é que não ganha. As ruas são calçadas com pedras “pé de moleque” em que a região é rica. Cores por toda a parte. Festas famosas como a do Divino e a Cavalhada. Claro que trouxe várias imagens do Divino Espírito Santo, do qual minha mãe era devota e que coloquei no meu estúdio esperando inspiração. Cem são as pousadas, inúmeros os restaurantes e bares. A Rua do Lazer, à noite, está repleta de jovens nas mesas ao ar livre. Na Rua Aurora, certo dia do ano, a banda seguida pela multidão, sobe até a igreja e de lá se vê o sol nascendo de um lado e a lua do outro. É, digamos, uma cidade encantada, boa de chegar, difícil de sair.
As falas principais da Flipiri foram na Casa da Câmara e Cadeia que o IPHAN restaurou, assim como restaurou em toda sua magnificência a igreja matriz de Nossa Senhora do Rosário, destruída por um incêndio em 2002. Esta igreja está citada no livro de Saint-Hilaire em sua viagem ao Brasil. Para mim, as falas fundamentais foram realizadas no entorno da cidade, nos chamados povoados e nas escolas, junto às crianças. Nada menos do que 23 escritores do grupo Casa de Autores, criado por Íris Borges, e muito bem organizado com portfólios e tudo, contaram histórias fizeram leituras e conversações com a meninada.
O essencial destes festivais é isso: a tentativa de estabelecer o habito da leitura, a formação do leitor que, uma vez capturado, jamais deixará de ler. A turma da Casa de Autores é toda jovem, animada, canta, dança, toca violão, todos bem humorados e felizes (ainda que cansados pela maratona). A Flipiri precisa entrar logo no calendário cultural não só da cidade, como de Goiás e do Brasil. Tem gabarito. Eram esses autores que animavam a noite na Pousada em saraus improvisados e divertidos que iam até às quatro da manhã. No dia seguinte, levantavam cedo e iam para o trabalho. O que a Flipiri apresentou de diferencial? A irmandade entre escritores, todos sempre juntos, como se fossem velhos conhecidos, cordiais e alegres. Nem sempre é assim pelas feiras por ai.
A Festa foi encerrada com a exibição do documentário sobre José Lins do Rego, de Vladimir de Carvalho, num cinema lotadíssimo. O filme é uma recuperação comovente e objetiva desse que foi um autor dos mais importantes, um dos fundadores do regionalismo, ao lado de Graciliano e Jorge Amado. Vladimir é cineasta de extrema sensibilidade e apuro, exato no timing e na dramaticidade. Zé Lins, eis um autor que teve embates com a critica e sendo ainda injustiçado, precisa ser revisto. Vladimir, na vida real tem uma vantagem. Sua companheira Lucília Garcez é doce, acolhedora, bem-humorada, hospitaleira. E uma grande escritora infantil.
Agora, se me perguntarem um dos sucessos da Flipiri vou dizer. Foi Luiza, filha de Alessandra Roscoe. Ela acompanhou os escritores por toda a parte, todas as escolas, almoços, sessões, sorridente e calma, sempre no colo de um alguém, afinal tem apenas dois meses. Começou bem a vida. Houve um episodio engraçado. Alessandra, para contar suas historias leva uma série de acessórios. Um deles é um arco-íris de madeira super colorido. Certo dia, sobrecarregada, afobada, apanhou as tralhas antes de entrar em uma escola e pediu a um senhor que, por favor, levasse para ela o arco-íris até a sala de aula. Solene, o homem respondeu: “Sou um funcionário, mas carregar arco-íris não é minha função, não é de minha alçada.” Tudo bem, um menino levou o arco-íris e jamais esquecerá aquele dia. Afinal, quem de nós na vida já carregou um arco-íris? "

3 comentários:

Anônimo disse...

Adorei a crônica do Ignácio de Loyola Brandão!!! Parabéns pelo sucesso!

Marcela Cunha Zaidan

Adriana disse...

Le, ca estou em Dharamsala, norte da India.Nao pude conter minha emocao ao ler a cronica. Q delicia, q certeza dessa proximidade, apesar de estar, neste momento tao longe fisicamente. Vc esta no caminho "cuamdi". Desculpe a falt de acentos, eles nao existem nos teclados de ca.
Beijos,Dri

Alessandra Roscoe disse...

Adriana, companheira e amiga querida!
Tenho certeza que esta temporada em terras tão distantes, seu mergulho interior irá proporcionar muitas e muitas histórias.Histórias que também serão contadas aqui!
´Fiquei muito emocionada com a crônica e com tudo o que a literatura tem-me proporcionado!
Beijos