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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Livro também dá samba e carnaval campeão!

Uma história sobre livros foi a grande sensação do carnaval carioca e devolveu, depois de mais de 70 anos, o título de campeã à escola de samba Unidos da Tijuca. Os mistérios de Alexandria e o grande incêndio que destruiu sua biblioteca famosa, queimando os livros surpreenderam na Avenida e empolgaram todo o público.
A comissão de frente da Escola azul e amarela, em que mulheres trocavam de roupa como num truque de mágica, virou ícone do Carnaval e tirou nota máxima dos jurados. A ideia do enredo da Escola veio através de um site de relacionamentos. O adolescente Vinícius Ferraz, de 14 anos, enviou uma mensagem para o carnavalesco da Escola, Paulo Barros e ele gostou da sugestão. Na quarta-feira, o jovem estava ao lado de Barros durante a apuração, bastante orgulhoso. Ele contou que tudo começou por causa de um livro, depois de ler Atlantis, do candaense David Gibbins, ele decidiu sugerir o tema, que, na Passarela do Samba, acabou faturando o carnaval carioca deste ano.

foto de Carlos Moraes da Agência O Dia

Terceira escola a entrar na Avenida no domingo, a Unidos da Tijuca levou para a Sapucaí um enredo sobre os diversos tipos de segredo e fez um desfile histórico. Com alegorias originais e inovadoras, a escola conseguiu produzir um espetáculo visual perfeito.
O abre-alas, reproduziu o incêndio que destruiu a Biblioteca de Alexandria na Antiguidade, encantou o público e foi aplaudido do início ao fim. Em termpos de Movimento Brasil Literário e da Campanha por mais livro e leitura na programação das tvs abertas, a consagração da Unidos da Tijuca, além de confirmar que livro também dá samba, vem mostrar que apostar nos livros e na leitura literária é sempre uma grande ideia!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Carta do escritor Bartolomeu Campos de Queirós

A carta que transcrevo abaixo foi enviada pelo escritor Bartolomeu Campos de Queirós, autor do Manifesto por um Brasil Literário a todas as pessoas que assinaram o manifesto e que fazem parte da enorme corrente pró-literatura em que se transformou o Movimento por um Brasil Literário (www.brasilliterario.org.br). Que sirva de reflexão para todos e que nos alimente com a certeza de que quando milhares de pessoas sonham o mesmo sonho, ele começa a se realizar!

Belo Horizonte, 8 de dezembro de 2009


Alessandra,

Hoje, me vi pensando como seria viver em um país de leitores literários. Pode ser apenas um sonho, mas estaríamos em um lugar em que a tolerância seria melhor exercida. Praticar a tolerância é abrigar, com respeito, as divergências, atitude só viável quando estamos em liberdade. Desconfio que, com tolerância, conviver com as diferenças torna-se em encantamento. A escrita literária se configura quando o escritor rompe com o cotidiano da linguagem e deixa vir à tona toda sua diferença – e sem preconceitos. São antigas as questões que nos afligem: é o medo da morte, do abandono, da perda, do desencontro, da solidão, desejo de amar e ser amado. E, nas pausas estabelecidas entre essas nossas faltas, carregamos grande vocação para a felicidade. O texto literário não nasce desacompanhado destes incômodos que suportamos vida afora. Mas temos o desejo de tratá-los com a elegância que a dignidade da consciência nos confere.

A leitura literária, a mim me parece, promove em nós um desejo delicado de ver democratizada a razão. Passamos a escutar e compreender que o singular de cada um – homens e mulheres – é que determina sua forma de relação. Todo sujeito guarda bem dentro de si um outro mundo possível. Pela leitura literária esse anseio ganha corpo. É com esse universo secreto que a palavra literária quer travar a sua conversa. O texto literário nos chega sempre vestido de novas vestes para inaugurar este diálogo, e, ainda que sobre truncadas escolhas, também com muitas aberturas para diversas reflexões. E tudo a literatura realiza, de maneira intransferível, e segundo a experiência pessoal de cada leitor. Isto se faz claro quando diante de um texto nos confidenciamos: "ele falou antes de mim", ou "ele adivinhou o que eu queria dizer".

Alessandra, o texto literário não ignora a metáfora. Reconhece sua força e possibilidade de acolher as diferenças. As metáforas tanto velam o que o autor tem a dizer como revelam os leitores diante de si mesmo. Duas faces tem, pois, a palavra literária e são elas que permitem ao leitor uma escolha. No texto literário autor e leitor se somam e uma terceira obra, que jamais será editada, se manifesta. A literatura, por dar a voz ao leitor, concorre para a sua autonomia. Outorga-lhe o direito de escolher o seu próprio destino. Por ser assim, Alessandra, a leitura literária cria uma relação de delicadeza entre homens e mulheres.

Uma sociedade delicada luta pela igualdade dos direitos, repudia as injustiças, despreza os privilégios, rejeita a corrupção, confirma a liberdade como um direito que nascemos com ele. Para tanto, a literatura propõe novos discernimentos, opções mais críticas, alternativas criativas e confia no nosso poder de reinvenção. Pela leitura conferimos que a criatividade é inerente a todos nós. Pela leitura literária nos descobrimos capazes também de sonhar com outras realidades. Daí, compreender, com lucidez, que a metáfora, tão recorrente nos textos literários, é também uma figura política.

Quando pensamos, Alessandra, em um Brasil Literário é por reconhecer o poder da literatura e sua função sensibilizadora e alteradora. Mas é preciso tomar cuidados. Numa sociedade consumista e sedutora, muitos são leitores para consumo externo. Lêem para garantir o poder, fazem da leitura um objeto de sedução. É preciso pensar o Brasil Literário com aquele leitor capaz de abrir-se para que a palavra literária se torne encarnada e que passe primeiro pelo consumo interno para, só depois, tornar-se ação.

Alessandra, o Brasil Literário pode, em princípio, parecer uma utopia, mas por que não buscar realizá-la?

Com meu abraço, sempre, Bartolomeu




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